Oh, tu, sombra que mora em mim,
Silenciosa, mas imensa como o vazio
Que se estende além da linha do horizonte,
Onde as cores se desfazem e finda em montes,
E o peso da alma se torna um fardo sem fim.
Tu, que te insinua nas brechas da mente,
Como uma névoa espessa que obscurece o dia,
Teus dedos frios criam encantos, poesia,
E a luz, antes radiante,
Agora se faz distante,
Como o eco de um grito perdido no abismo de quem sente.
Não sou mais quem era antes de ti,
Transformei-me em um espectro de mim mesmo,
Caminho por ruas vazias, sempre a esmo,
Onde os rostos que cruzo não têm nome,
E as vozes que ouço são ecos de um passado que um dia fui.
Ah, como eu lamento a ilusão da alegria,
Que agora se dissolve como poeira ao vento,
Cada passo dado, carrego mais um peso,
Cada respiração, uma luta silenciosa e fria,
Contra o mar de desesperança que me engole.
O mundo lá fora continua a girar,
Mas tudo é tão longe, distante,
Como se estivesse preso em um vidro fumegante,
Onde nada chega com clareza a pairar,
Onde as cores do mundo se misturam em tons de cinza urgente.
Eu te abraço, depressão,
Não por escolha, mas por compreensão,
És o companheiro que não me deixa sozinho,
Que me acompanha em cada silêncio,
Em cada noite sem fim, sem sabor, sem vizinho...
Mas em teu abraço, eu aprendi a ver
A fragilidade de nossa existência,
A quebrar-me e reconstituir-me em penitência,
A entender que, talvez, por não agir,
A dor seja a única coisa que realmente sei sentir.
Oh, tu, que me consumiste e me tornaste menos,
Ainda assim, em teus braços tao imensos,
Há algo de profundamente humano,
Um grito abafado, vil, mundano,
Mas que, de algum modo, permanece inteiro.
E no fim, quem sou eu sem ti?
Nada além de uma sombra que tenta existir
No mundo das formas, onde nada é real.
E talvez, se eu me perder completamente no final,
Tu serás a última coisa a me definir,
Pois sem ti, quem sou eu, de onde eu vim?
Apenas a ausência do que fui, sem me ferir!

